É difícil imaginar um ser no planeta terra que não goste de chocolate. Quando ele é oriundo de terras amazônicas, o sabor é ainda mais apurado, pois faz bem não só ao olfato e paladar, como ao meio ambiente. Boa parte dos produtores locais já utiliza o sistema agroflorestal, ou seja, trabalha de maneira sustentável. No Pará, há 16 fabricantes de chocolate e mais de 25 mil produtores de cacau que, junto com os apaixonados pelo produto, celebram nesta quarta-feira (7), o Dia Mundial do Chocolate.

A matéria-prima originária do chocolate é o cacau e a amêndoa do fruto, produto em que o Pará vem despontado, cada vez mais, como o líder absoluto no Brasil, deixando a Bahia em segundo lugar.  Além do
topo, no ranking nacional, o estado produz o famoso chocolate nativo amazônico – aquele que ganhou um sabor inigualável e com as características da região. O município de Tomé-Açu, por exemplo, se destacou tanto na produção de amêndoas, produzidas no sistema de Safta (Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu), que acabou sendo o primeiro do Pará a receber o selo de Indicação Geográfica (IG), do cacau produzido na região.

Essa ascensão paraense, vem chamando a atenção de vários especialistas mundiais. O Pará – através de órgãos estaduais, como a Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap), Emater e Adepará, de pesquisa (como a Universidade Federal do Pará – UFPa) e privados, como o sistema Faepa (Federação da Agricultura e Pecuária do Pará) e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural( Senar), além das associações de produtores locais –  é constantemente convidado para participar de festivais renomados do chocolate, como o de Paris, por exemplo. Em função da pandemia do novo coronavírus, muitos eventos – como o já tradicional Festival Internacional de Chocolates e Flor Pará, realizado em Belém, sempre no mês de setembro – precisaram ser adaptados para formatos online.

Mas, isso não tira o brilho e ações voltadas para o crescimento do setor. Os mini-festivais que ocorrem em datas pontuais, também viabilizam aos fabricantes, a oferta ao consumidor dos diversificados produtos feitos à base de chocolate.

Nativo – Com uma fábrica de chocolate, instalada no município de Santa Barbara do Pará, mais precisamente na comunidade de ribeirinhos e quilombolas, Colônia Chicano, o chocolatier César De Mendes, uniu o respeito e preservação ambiental, à geração de renda.

O chocolatier César De Mendes, uniu o respeito e preservação ambiental, à geração de renda.

Foto: Divulgação

Ele começou trabalhando com cacau tradicional, embora tivesse intimidade com a biodiversidade, mas não tinha nada que associasse à Amazônia. “Aí vieram o raciocínio e a ideia de trabalhar com cacau nativo. O  único lugar do mundo que tem esse  cacau é na Amazônia”, destaca.

De Mendes foi em busca das comunidades tradicionais, para trabalhar no meio da floresta: quilombolas, índios, ribeirinhos e  agricultores familiares rurais. “Eles têm a sensatez, o equilíbrio, respeito, o zelo o bem estar da floresta. Respeito aos animais. Isso me inspirou: o cacau como um veículo para trazer essa mensagem de defesa da floresta, do equilíbrio e da vida, da biodiversidade”, ressalta.  Ele lembra que tudo começou na infância. “Quando eu comecei a fazer as primeiras barras de chocolate, eu percebi que sempre estava querendo me reportar aquele gosto da minha infância. Aquela memória sensorial ficou”, relembra.

Essa união da produção com o respeito ao meio ambiente, como ressalta o secretário de desenvolvimento agropecuário e da pesca, Alfredo Verdelho, faz com que o chocolate amazônico se torne mais saboroso que o chocolate tradicional, pois é feito com a consideração que a natureza merece. “Estamos felizes em verificar, nas ações realizadas no dia a dia, que os nossos produtores de cacau estão trabalhando cada vez mais com o sistema agroflorestal. O governo do estado, através da Sedap, tem trabalhado bastante para incentivar essa prática de produção de maneira sustentável. O resultado é esse que a gente vê: um cacau – e consequentemente, um chocolate – com um gosto a mais, único, que leva embutido o respeito ao meio ambiente”, enfatizou Verdelho.

Paixão – Mais do que nunca, neste dia especial de celebração do chocolate, a estudante do curso de Direito, Andréa Luiza Ribeiro, garante que não vai deixar de saborear o seu produto favorito.

A estudante do curso de Direito, Andréa Luiza Ribeiro, ama chocolate.

Foto: Divulgação

Declaradamente amante do chocolate,  diz que falar do tema, para ela, é como expressar o sentimento mais lindo que alguém pode ter. “Lembra um pouco do amor. Chocolate é aquele que podemos ter em vários momentos da nossa vida, seja para presentear alguém que comemora datas especiais ou para se desculpar, ou para acalmar os ânimos da TPM (Tensão Pré-Mestrual) ou simplesmente, como forma de carinho. Sem falar que o chocolate é aquele presente que sempre dá certo. Aquele quentinho no coração de quem consome. Sou muito suspeita para falar, pois amo, e não nego, o quanto aprecio. E quem
me conhece, sabe que amo recebê-los de presente”, sorri a apaixonada pelo produto, enquanto declara seu amor pelo chocolate.

Ela tem um carinho especial pelo chocolate produzido no Pará. “Amo os chocolates regionais, sou apaixonada, confesso que ainda conheço pouco, mas os que provei, sou apaixonada”,  conta a estudante. Ela lembra que durante um período da vida, começou a fazer bombons de chocolate para vender. “Nossa, era um sonho, vender aquilo que eu amava. Não deu muito certo, pois, eu consumia mais que vendia, mas lembro de que depois dessa fase, a paixão por chocolate só aumentou”, declarou a estudante.

Jesus Souza, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Pará, defende que a produção local de chocolate.

Foto: Divulgação

Incentivo –  O professor Jesus Souza, Diretor técnico do Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA) e professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Federal do Pará, observa que o paraense tem pouco hábito, ainda, de comer chocolate fino e de qualidade. Assim, sugere o incentivo para empresas processadoras de amêndoas e produtoras de chocolates a se instalarem no nosso estado, para que o chocolate se torne mais acessível à população. “Temos o costume de comer chocolate com muito açúcar e leite. É o chamado chocolate comum, que é aquele que não é feito com cacau selecionado e sim o chamado “cacau buck” . Seria interessante fazer uma campanha de marketing, demonstrando a importância da cadeia produtiva do cacau e chocolate e seus benefícios para a saúde, e quem saber o cacau paraense tem a mesma valorização como a que ocorreu com o açaí. Todo mundo conhece o açaí, somos incentivados a consumir desde criança, por que a gente não cria esse vínculo afetivo com o cacau e chocolate? Já que ele também é daqui e o chocolate, todo mundo gosta; poderia incentivar o consumo interno; já é uma forma de agregar valor aos produtores”, sugere o pesquisador, que é o responsável pelo laboratório de análise sensorial do cacau que funciona no Parque Tecnológico do Guamá (PCT). O professor defende que a produção local não deve perder nunca esse ‘selo Amazônia’, pois essa identidade valoriza o produto que sai do estado.

O coordenador do Programa de Incentivos à Cultura Cacaueira (Procacau) da Sedap, o engenheiro agrônomo, Ivaldo Santana, disse que um dos projetos financiados pelo Fundo de Apoio à Cacauicultura no Estado do Pará (Funcacau), é o da consolidação da lavoura cacaueira nos municípios próximos de Belém: Santa Bárbara do Pará, Moju, Acará, Igarapé-Miri e Barcarena. Desenvolvido em parceria com
o Senar, o projeto tem incentivado, segundo Ivaldo Santana, os produtores a fazerem o plantio e os tratos culturais necessários, para aumentar a produção e a produtividade. Esse trabalho impacta na fabricação de um chocolate, literalmente, fruto da terra.  “É a valorização da nossa cultura; um incentivo, não só na produção local, mas na capacitação técnica do produtor para que, esse trabalho com a identidade amazônica, se mantenha e só venha a crescer cada vez mais”, ressalta Santana.

Crescimento – O crescimento exponencial ao qual a produção de cacau vem passando, sobretudo nos últimos dois anos, pode ser visto como uma volta às origens. Sim, porque muita gente pode não saber, mas o cacau, conforme os estudos especializados, publicados por diversas fontes, entre as quais a Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), já estava na Amazônia.  Nasceu na Cordilheira dos Andes e foi disseminado ao longo do rio Amazonas, até chegar no Pará.

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O cacaueiro migrou tanto para o leste quanto para o norte e oeste do planeta avançando nas fronteiras climáticas das regiões equatoriais e tropicais. Para o leste, o tipo denominado “forasteiro” partiu, inicialmente, do Estado do Pará para o Estado da Bahia, que acabou por muito tempo, associada no Brasil ao produto. O que mudou nos últimos anos, voltando o Pará, a se destacar na produção cacaueira.

Pouco mais da metade de todo o cacau produzido no Brasil é cultivada em solo paraense (51,54%). O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE (LSPA), elaborado pelo Núcleo de Planejamento e Estatísticas da Sedap, mostra uma projeção mais animadora ainda, para este ano: um aumento para 53,60% de toda a produção cacaueira no Brasil. Mais cacau, significa mais chocolate genuinamente amazônico. Uma excelente notícia aos apreciadores de um bom chocolate.

Texto: Rose Barbosa (Ascom/Sedap)

Fonte : Por Governo do Pará (SECOM) / Agência Pará